Basta ouvir um telejornal, acompanhar o dia a dia da comunidade, ver os jovens em dificuldade para sair de casa dos pais, os aglomerados nas grandes cidades…
Temos um grande problema de
Habitação em Portugal. É estrutural, é difícil e demorado de resolver. Mas… guess
what? Se não começarmos, nunca ficará resolvido!
Tenho a felicidade de o meu
trabalho me fazer deparar dia após dia, com a realidade vivida nas instituições
e nas empresas e sempre tive o bichinho de utilizar a minha capacidade para
resolver problemas reais. É isso que me faz adorar trabalhar lado a lado com
instituições públicas, ajudar a resolver os problemas ou bloqueios que
invariavelmente se opõem à mudança e à inovação.
Olho para o problema da Habitação
e começo logo a desenhar mentalmente um plano. Começa por uma visão de como
podia ser no futuro e depois, com alguma backward induction (como gostei
de Teoria de Jogos na faculdade!), perceber que medidas tomar hoje para chegar
a essa visão de futuro. Se
por um lado há uma questão física – a escassez e pressão urbana – há também a
questão institucional, com morosidade em obter licenciamento, a fragmentação
dos dados associados e das responsabilidades.
Aqui há dias, em trabalho,
deparei-me com o conceito de “digital twins” e achei que tinham um
potencial enorme para investigação. Ora, ocorreu-me aplicá-lo ao tema da
Habitação. A minha visão seria, ter um digital twin da cidade/ país/
região, que incorporasse os dados existentes de diversas fontes (INE, Educação,
Insfraestruturas, Segurança Social, etc), permitindo mapear todas as
infraestruturas (casas, escritórios, escolas, repartições públicas, lojas,
etc), a população (habitante e visitante), o movimento e as suas tendências
(horários, circulação rodoviária, transportes públicos, etc), as carências
(antever necessidades de infraestruturas de serviço aos cidadãos), as
oportunidades, as necessidades de reabilitação. Esta é a visão de futuro – uma mega ferramenta que com
dados reais, projeções controladas, soluções preditivas e conhecimento real da
situação, permite uma gestão urbana mais eficaz, fazer experiências
(no ambiente digital) para perceber as consequências de possíveis medidas nos
outros indicadores e apoiar as melhores decisões, com os recursos disponíveis.
Como sempre, a tecnologia não muda problemas por magia. Aliado a esta capacidade de gerir o território de forma mais organizada e informada, temos de pensar nos incentivos corretos para que haja oferta de casas, dispersão territorial e acima de tudo agilidade. Coloco algumas em cima da mesa, e como sempre, gostava de poder obter feedback sobre estas ou outras ideias:
- Quanto à dispersão territorial – repliquem-se receitas como a de Oeiras há uns bons anos: ao criar incentivos para as empresas se fixarem, criaram-se empregos, promoveu-se a construção de habitação e espaços comerciais e criou-se um novo polo urbano, por estes dias, já em pressão, junto a Lisboa;
- Criar incentivos para casas fechadas/ não habitadas – facilitar o arrendamento regulado, não criar barreiras à entrada e à saída, regular rendas nos grandes centros através de oferta pública ou parcerias publico-privadas (ou cooperativas) de habitação, desincentivar as casas paradas ou não reabilitadas (tema controverso “use it or lose it”);
- Criar plano de reabilitação de edificado público degradado (não só de habitação, mas também) e dar incentivos para os privados fazerem o mesmo (créditos bonificados, criação de planos de pagamento para obras de interesse nacional em que o Estado se tivesse de substituir ao proprietário, por exemplo);
- Conversão de uso: há já alguns exemplos, mas normalmente estes projetos esbarram em bloqueios institucionais, dada a necessidade de se converter um licenciamento de comercial para habitacional, por exemplo. Conheci no ano passado o projeto de reconversão de um quartel em Lisboa, que estava devoluto, em habitação para arrendamento acessível. Basta um breve passeio em qualquer cidade para perceber que há potencial, é preciso fazer acontecer e encontrar as vontades!
Tenho a certeza de que tudo isto é possivel! Pode não
acontecer num mandato, mas isso nunca deve desmotivar nenhum decisor, certo?
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