Tenho
2 crianças em idade escolar e, mesmo antes de as ter, a educação já era um dos
setores que mais me fascina. Tenho um respeito e admiração por quem domina
com mestria a ciência da pedagogia!
Fiz
todo o meu percurso na escola pública e, até à data, essa foi também a escolha
para a educação cá em casa. Acredito muito na escola pública e tenho por vezes
muita vontade de ter a capacidade e força necessária para melhorá-la
continuamente e manter viva a chama de admiração e respeito por todos quantos
permitem que as minhas filhas tenham segurança, carinho, apoio e acompanhamento
que só a escola pode dar nos seus percursos (o resto estão cá a família e
amigos para fazer).
Este
ano, com a entrada da mais nova no 1º ano, tive o meu primeiro encontro com um
estilo de educação mais moderno. Logo na 1ª reunião de pais, senti que
estávamos perante um novo
paradigma de educação. Não é padrão da escola, nem sequer é
uma adoção total do modelo de escola moderno. Mas é uma escolha da professora,
adaptada às possibilidades da escola. A professora explicou que teve formação
especifica nesse modelo e que já tinha experiência na sua adopção.
Houve
logo alguns pais mais cépticos: "Como assim, o meu filho não vai ser
obrigado a escrever em letra manuscrita?" ou "Tempo de estudo
autónomo? Mas eles não têm capacidade de saber o que devem estudar e como
estudar sozinhos!"
Confesso
que ouvindo as explicações da professora, aquilo começou a fazer-me sentido.
Estando o ano a terminar, posso até confirmar que mesmo os inicialmente
cépticos, se renderam aos métodos aplicados.
Foi
neste contexto que decidi mergulhar no mundo das diferenças entre o estilo
moderno e o tradicional da educação, em perceber níveis de aplicação em
Portugal e como poderíamos tornar este modelo como base para um sistema
educativo moderno e mais adaptado às necessidades do mundo atual.
Aqui
vai o meu pensamento (tentativamente menos caótico do que o normal em mim)
sobre o tema
---
E
se a Educação fosse adaptada ao mundo real?
E
se as crianças aprendessem o que realmente lhes vai ser útil para a vida?
E se nas empresas chovessem CVs de jovens
que, em geral, tinham as soft skills necessárias para as empresas?
Portugal
continua a fabricar bons alunos para uma escola que já não existe — e maus
profissionais para um mercado que exige exatamente o oposto
Há
uma pergunta que nenhum programa eleitoral em Portugal responde com clareza:
para que mundo estamos a preparar os nossos filhos? Se a resposta for
"para o de 1985", então o sistema está a funcionar muito bem. Se for
para o de 2035, temos um problema sério — e já estamos atrasados.
O
modelo de ensino dominante em Portugal assenta num pressuposto que o Mundo
entretanto abandonou: que o conhecimento técnico é escasso, estável e
transmissível de professor para aluno em sessões de 50 minutos. Em 2026, o
conhecimento factual está a um clique de distância, as profissões mudam mais
rápido do que os currículos, e as competências que as empresas mais procuram raramente aparecem em
grelhas de avaliação escolar.

O que o mercado quer e a Escola não dá!
O
relatório Future of Jobs 2023 do World Economic Forum coloca
no topo das competências mais procuradas para a próxima década: pensamento
analítico, pensamento criativo, resiliência, flexibilidade, curiosidade e
aprendizagem contínua. Nenhuma destas competências é avaliada num exame
nacional. Nenhuma consta como critério de progressão no ensino básico ou
secundário público.
Em
Portugal, um aluno pode terminar o ensino secundário com 18 valores em todas as
disciplinas e chegar ao mercado de trabalho sem nunca ter sido obrigado a defender uma ideia perante
uma audiência, a liderar um projeto com prazos e recursos reais,
a lidar com ambiguidade sem um manual de instruções, ou simplesmente
a falhar e aprender com isso. São exatamente estas as competências que
qualquer gestor sénior diria que procura — e que raramente encontra — em
licenciados recém-entrados no mercado.
Tema estrutural: um sistema
desenhado para si próprio
Como
todo o bom aluno, o
sistema educativo português adapta-se aos seus próprios incentivos,
em vez de apontar aos seus objetivos declarados. O objetivo declarado é
"preparar cidadãos para a vida ativa". O indicador real é a taxa de
aprovação nos exames nacionais e o acesso ao ensino superior (que por sua
vez usa os mesmos exames como critério de seleção).
O
resultado é um ciclo fechado: as escolas ensinam para os exames, os exames
medem memorização e o ensino superior seleciona por memorização. O mercado de
trabalho fica fora da equação!
É
paradoxal: Portugal melhorou significativamente nos resultados PISA na última
década, o que é positivo. Mas os resultados PISA medem sobretudo literacia e
raciocínio básico, não medem criatividade, trabalho em equipa ou pensamento
crítico. Podemos estar a melhorar nos indicadores errados enquanto o gap face
ao mercado se aprofunda.
A fuga para o privado ou para
novos modelos pedagógicos?
O
crescimento do ensino privado em Portugal não é apenas um fenómeno
socioeconómico. É também um sinal de mercado: famílias que podem pagar estão a
lutar contra o modelo dominante. Em Lisboa, há hoje mais escolas privadas do
que públicas. Em Cascais, quase metade dos alunos está no privado.
Parte
desta procura é por estatuto social. Mas uma parte crescente é por modelos pedagógicos diferentes:
currículos internacionais (IB, Cambridge), pedagogias ativas como Montessori ou
o Movimento da Escola Moderna (MEM), projetos de aprendizagem por competências.
São exatamente os modelos
que o sistema público reconhece na teoria — o "Perfil dos
Alunos para o Séc. XXI" de 2017 está alinhado com estes princípios — mas aplica marginalmente na
prática.
O
problema óbvio: quem não pode pagar fica no sistema que prepara para o
mundo antigo. A desigualdade educativa em Portugal não é apenas de recursos — é
de modelo pedagógico.
Apesar
de ser a minha experiência atual, pelo menos com a mais nova, sei que é uma
realidade marginal e muito pouco experimentada ou vivida.
O
que vi no meu caso pessoal, num 1º ano muito apoiado no Movimento Escola
Moderna (apesar de não totalmente ou formalmente seguido):
-
Crianças felizes, motivadas para aprender;
-
Crianças que leem como gente grande! (Dou pela miúda, a ler qualquer livro
sozinha desde meio do ano letivo, a ler perfeitamente palavras e depois
pergunta-me o que querem dizer, porque não as conhece);
-
Crianças que expressam os seus sentimentos, são confiantes, aprendem a regular
as suas emoções e a saber avaliar onde precisam de melhorar.
Quando
vejo alguns vídeos partilhados (quase em segredo e por concordância dos pais)
duma sala de aula, alguns em que estão os 23 miúdos super concentrados nas suas
atividades, com musica de fundo a tocar na sala, outros em que dançam como
loucos para acordar, as mesas e cadeiras reunidas em pequenas ilhas, espaço de
leitura, montes de materiais espalhados pela parede, por vezes uns estão na
certeira a fazer um exercício, outros estão sentados no chão, nas suas
almofadas, a utilizar o colar de contas... acho que a minha professora primária
se visse aquilo lhe dava uma coisinha má!
A
própria professora diz "Às vezes as minha colegas dizem 'eu já vou no s, e
tu?' e eu explico que não dou as letras uma a uma por uma ordem
especifica".
Análise crítica - medidas
procuram-se!
Podes
tirar a pessoa da consultoria, mas nunca tiras a consultoria da pessoa! Como
boa consultora que nunca deixarei de ser, pensei em medidas!
Se
pensei muito bem, profundamente e de todos os ângulos possíveis? Não! Afinal de
contas sou economista de formação, consultora de deformação, algumas coisas
damos como adquiridas ou assumimos face ao melhor conhecimento que conseguimos
ter dadas as circunstâncias!
Disclaimer:
Não sou sonhadora (só um pouco!), sei que a transformação do sistema educativo é complexa, lenta
e politicamente ingrata - os resultados aparecem numa geração, não
num mandato!
Olha,
aqui ficam as minhas:
- Reformular
os exames nacionais e/ou reduzir o seu peso (enquanto forem o fator de
progressão e medição de sucesso, as escolas vão trabalhar para eles)
- Investir
MUITO na formação contínua dos professores (a prática não muda por
decreto)
- Integrar
empresas e sociedade civil no currículo - mesmo à seria, não só no papel
ou em medidas pontuais
- Criar
indicadores de sucesso alternativos - indicadores como capacidade de
argumentação, trabalho colaborativo, literacia digital crítica e resolução
de problemas abertos são mensuráveis — simplesmente nunca foram incluídos
no quadro de prestação de contas do sistema
- Dar
autonomia real às escolas - com responsabilização real - Autonomia
sem accountability é desorganização. Accountability sem
autonomia é burocracia. Portugal tem demasiado da segunda e demasiado
pouco da primeira.
- Tornar
o ensino superior menos dependente de uma única nota - se o acesso ao
ensino superior incluir entrevistas, portfolios, avaliação de competências
transversais, é o incentivo para o secundário passar a desenvolver essas
competências.
Espero
poder continuar a acompanhar um percurso escolar moderno cá em casa (o fato de
a professora estar na incerteza de ficar naquela escola e continuar a
acompanhar a turma dava todo um novo post, but 'fingers crossed!'), confesso
que de momento estou rendida, com esperança de que os novos modelos se espalhem
e eu ainda tenha tempo de ver entrar estes jovens mais bem preparados para o
mundo, no mercado de trabalho dentro de uns anos!
Gostava
de ouvir/ ler mais ideias, "bater bolas" sobre o assunto... por
enquanto continuarei a ler sobre estes temas e acho que vou aprofundar alguns
modelos que vi referenciados, como o finlandês para perceber como por estas
coisas em prática! Não vá um dia alguém me pedir opinião sobre o tema!